
O conceito criado pela designer de interiores, Judith Pottecher, tem como ponto de partida o desejo de fazer do Zank Boutique Hotel uma porta de entrada privilegiada, um mergulho na arte de viver brasileira. Com essa proposta, o projeto adquiriu uma identidade própria capaz de atrair o visitante e iniciá-lo aos nossos legados estéticos e ao nosso modo de viver. Viver com referências a esse puzzle que é a cultura brasileira. Viver com modernidade, valendo-se da memória como elemento motor.
“Busquei materializar uma estética que traduzisse momentos e atmosferas brasileiras. Um passeio no tempo; em vários períodos que se cruzam, que se sucedem sem cronologia precisa nem reconstituições, mas inspirações capazes de nos fazer transportar através das nossas múltiplas referências: barrocas, coloniais, modernistas, tropicalistas. Uma ‘viagem’ pelas nossas matrizes, vistas através de um olhar leve, despretensioso e contemporâneo.
Criei assim sete ‘atmosferas’ para povoar os 20 apartamentos, todos diferenciados, únicos, onde cada elemento foi criado ou garimpado especialmente para cada um desses ambientes. No Casarão, ponto de partida do projeto, a memória nos leva sucessivamente ao apartamento colonial, um espaço masculino onde me inspirei na cidade histórica de Cachoeira e seus gradis excepcionais, dentre outros elementos.
O apartamento Barroco evoca o personagem de Catarina Paraguassu. Imaginei um espaço exuberante e evocador de um luxo ‘à la française’, em referência à sua temporada na corte francesa do século XVII. Para criar esse décor, fiz um “clin d’oeil” a uma personagem bem mais contemporânea à Paraguassu, a mítica e barroca Coco Chanel, inspirando-me no glamour de sua suíte parisiense do Ritz. Introduzi elementos de mobiliário revisitados e feitos sob medida, ornados de acabamentos folheados a ouro, serigrafias e estampas criados especialmente para o Zank. No terceiro e último apartamento do Casarão, o apartamento modernista coloca em valor a elegância e a sobriedade dos primeiros móveis modernos brasileiros.
No anexo de arquitetura minimalista, faço desfilar sucessivamente as inspirações que chamo de matrizes/raízes, os clássicos contemporâneos, os tropicalistas e os neo-barrocos. Nos matrizes/raízes, um dos apartamentos mescla elementos indígenas e europeus; as fibras naturais e uma bergère rubi dão o tom, realçados por um par de leques desenhados por mim e executados em capim dourado. No segundo, escolhi a referência que penso melhor ilustrar alta qualidade artística e processo de miscigenação brasileira, a obra do mestre Rubem Valentim. Esse apartamento é uma inspiração/homenagem a esse grande artista construtivista abstrato, que bebe na fonte da nossa cultura afro e ameríndia para construir uma linguagem nova, refinada, vigorosa e verdadeiramente universal. As cores e “riscados” do mestre, projetam-se no espaço e no mobiliário conferindo-lhe uma elegância contemporânea, com alma genuinamente brasileira.
Nos apartamentos tropicalistas, o mobiliário em fibra de vidro dos anos 70, assim como os elementos que o complementam traduzem o vigor contestatório do movimento, expresso nas cores primárias, nas referências concretas, nos ícones como Hélio Oiticica, Caetano Veloso, enfim procurei transpor algumas referências do nosso universo pop tupiniquim nesses apartamentos. Os clássicos contemporâneos fazem desfilar exemplares do design brasileiro com sobriedade e aconchego. O Neo-Barroco, como não poderia deixar de ser, vem concluir essa viagem estética, pontuando com refinamento e contemporaneidade as atmosferas dessa ala.
Na integralidade do projeto, dos objetos ao mobiliário, passando pelos complementos, todos são brasileiros e traduzem nosso desejo de mostrar o nosso arsenal de competências criativas. Nesse contexto, tive um carinho especial ao propor uma biblioteca/videoteca cuja a tônica é a literatura de cordel. Com seu profuso repertório de abordagens diversas, incisivas e sempre de atualidade, o Cordel é uma das nossas maiores expressões populares e merecia, a meu ver, um lugar de destaque. Lado a lado a exemplares de cordel, as gravuras de Hansen Bahia dividem a cena e fazem eco ao poema o “Navio Negreiro” de Castro Alves.